Um ensaio sobre loucos, contrariando os padrões.
Stefania Bril

O Estado de São Paulo, Brasil, 15 de março de 1985

 

A porta está fechada. Mas vocé é irresistivelmente atraido para dentro. Quem sabe é por causa do sorriso que sai da imagem: o do “porteiro louco” vacilando entre o sorriso oculto, um para dentro e o outro para fora, o sorriso para a câmera. Acanhado, convidativo, puro, indefeso. O mundo louco sentado numa cadeira a equilibrar-se sobre os cinco pés. E, do atravessar o limiar da porta (aquela da imagem), vocé adentra um mundo diferente, habitado por “loucos”. Desta vez eles vém de fora, da Argentina (Eduardo Gil, fotografias, Centro Cultural São Paulo, até o dia 31 de março.)

Parece um tema já tão batido, explorado. Apresentaria ainda um interesse? Não, se fossem imagem repetitivas, do mundo rotulado, de um rosto só: previsto, esperado e encontrado. Sim, quando o fotógrafo, ao recusar o olhar imposto, penetra no mundo dos “diferentes” através do olhar e sentir própios.

Fotógrafo-testemunha, que respetta, fotógrafo-participante, que mergulha, fundo. Para entender melhor. Não é um mundo sem rosto, de corpos fragmentados e ressintetizados, como o fez magistralmente Hugo Denizart; mas, por algum milagre, quem sabe o de osmose com o humano do fotógrafo, nascem as imagens dos “loucos” de rostos abertos que escapam do padráo, do estigmatizado; são gente, apesar de tudo. (são dois anos de convivéncia com os doentes).

É um destes trabalhos de gestação lenta. Primeiro, o contato com os doentes mentais através da palavra (é o maior manicômio de Buenos Aires, de cerca de 3.000 habitantes). Porque normalmente a palavra inexiste no hospital psiquátrico (de onde vem este gesto de tampar os ouvidos num mundo feito de silêncio?). Quem iria auvir os discursos “loucos”? Então os doentes se calam. Eduardo Gil devolve-lhes o dom da palavra, através da imagem. Ele cria uma oficina de “leitura das imagens”. A fotografia torna-se um estímulo para falar, e o fotógrafo, como uma mágico, tiro do seu chapéu, no lugar das pombas e dos lenços, as imagens. Simplesmente. A imagem induz ã palavra, a palavra provoca um ressurgir de uma imagem nova.

E, através das imagens, a câmera pendurada no pescoço, câmera testemunha cega, que ainda não viu nada, Eduardo Gil adentra o sistema da instituiçao. A estrutura autoritária, opressiva que Gil chama de “loucoteca”, um arquivo esquecido dos loucos (ou arquivo dos loucos esquecidos) sacode a poeira em contato com o fotógrafo e a sua câmera. E os “loucos” agora já mais soltos, fitam confiantes a máquina para serem retratados.
 
São imagens “calmas” que feram, pela solidão. Como é imensa a solidao humana. Os mais frágeis não agüentam a barra e quantas vezes é simplesmente a solidão que se torna um passaporte suficiente para integrar a institução Psiquiátrica. E então comença a confinada, organizada. Fila para comer, cama e hora para dormir. De vez em quando um passeio, pelo mundo livre. É curioso observar como o rosto retratado e, ao mesmo tempo, o nosso modo de vé-lo mudam em função do ambiente. Há, nesta exposição, retratos atemporais, absolutos que, se tirados fora do contexto, transformariamse simplesmente em portraits. Belos. Mas há outros que parecem esculpidos pelo ambiente. É ele que modela a pessoa e nosso modo de ver. Os “loucos” atrás das grades, na presença de sol diferente, listrado lá dentro, maquinalmente vestem as máscaras do “anormal”. Outros abrem um largo sorriso porque na hora do passeio, ambientados lá fora, convivem com um outro sol; imenso, não listrado, livre!

O fotógrafo maneja a luz com competéncia. Tanto neste ensaio pungente na sua sobriedade, como nos outros cronologicamente anteriores. São reportagens curtas sobre a América Latina. Gil capta a Bolivia feita dos chapéus orgulhosos, reluzentes, embutidos na cabeça do povo, ou parece plantar, como se fosse sob encomenda, uma árvore e a sua sombra, the tamanho certo, só para aconchegar um pequeno descanso sentado na calçada de cócoras ou, quando lá no alto das montanhas de Peru, de repente receoso que a luz do dia vá sumir logo, aprisiona-a num canto da image, dentro da janela suspensa no ar. Eduardo Gil, fotógrafo mensageiro do sol e… da esperança.